Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um mundo em que tudo é lixo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.11.09

 

War Inc. e um mundo em que tudo é lixo, a vida, as pessoas, a arte. Um mundo em que tudo é superficial, descartável, reciclável. Em que tudo está à venda, em que tudo pode ser traficado. E em que se enriquece facilmente.

Um mundo em guerra permanente, com territórios delimitados por interesses obscuros e dominados por traficantes.

Não há lei nem ordem. Nem qualquer sombra de respeito pela vida. Mata-se porque sim, por dinheiro ou por razão nenhuma.

Um mundo com imenso ruído, a toda a hora, dos tiros, das explosões, da música lixo, da publicidade lixo.Visualmente, é o caos, cidades destruídas mas ainda assim a funcionar, de forma quase esquizofrénica. E no meio das ruínas, néons e anúncios publicitários.

Nunca um filme como este War Inc. me pareceu tão verosímil na antecipação de um futuro mais próximo do que pensamos. Aqui, por enquanto, é o Turquistão. Mas se me perguntarem se é assim que vejo o futuro direi, Com os dados que tenho, baseando-me em tudo o que observo hoje, é este o futuro que nos espera mesmo. Um mundo bem mais caótico do que desejaríamos certamente. Um mundo onde será cada vez mais difícil viver.

 

Voltemos ao filme. Uma das cenas mais incríveis e que condensa a metáfora deste futuro antecipado é a do encontro entre o nosso herói, um operacional da CIA, que está farto de matar por interesses que já se afastaram há muito dos iniciais, minimamente aceitáveis e legítimos, eliminar os vilões, e o seu Chefe, frio e implacável. Este encontro dá-se num Parque Temático, um Circo Romano. O nosso herói, para salvar a própria pele, acabará por enfiar o Chefe num carro do lixo, colocado ali mesmo, no meio do recinto. O Chefe não aceitara bem a sua demissão. Não teve, pois, nenhuma outra alternativa se não enfiá-lo lá dentro e carregar no fatídico botão.

 

Outra cena: a chegada da cantora pop ao hotel, a cantora que personifica, na imagem e no comportamento, os ideais pornográficos do momento, para uma barbárie consumista de fãs que a seguem de forma canina. (De certo modo, também já podemos perfeitamente vislumbrar esta antecipação do futuro na música lixo a encher a rádio a toda a hora, os centros comerciais, as lojas, as ruas. Até a roupa da moda já se aproxima dessa vulgaridade e há muito que o bom senso e o bom gosto se ausentaram dos lugares in).

O nosso herói resistirá à sedução descarada da miúda, pois a cantora não passa de uma miúda assustada, como ele lhe dirá depois, e tentará protegê-la como pode. Acabará por descobrir que ela faz parte do seu passado doloroso (sim, um herói que se preza tem sempre um passado doloroso).

Também resistirá à sua última missão camuflada: eliminar o Omar Sharif, um ministro com este nome incrível. Como troca pela sua vida, o alvo dar-lhe-á uma informação fundamental: o seu ex-Chefe está vivo, sobreviveu à espremidela do carro do lixo e terá sido o responsável pela sua dor maior, a perda da família.

O nosso herói só não resistirá ao encanto da jornalista idealista, sim, ainda haverá espécimens destes a provar que a nossa humanidade não se terá perdido para sempre, até porque são estas personagens que nos irão lembrar isso mesmo, os valores fundamentais, da vida, da liberdade, da justiça. É isso mesmo que dirá ao nosso herói: Estou sempre em minoria, um lugar muito solitário. Mas gosto de estar assim. Também só por milagre alguém tão ingénuo e vulnerável escapará ileso desta aventura, bem, por milagre e com uma ajuda deste homem, que ela vai aprendendo a aceitar.

 

Em War Inc., uma sociedade completamente alienada e consumista, vulgar e superficial, a imagem e a publicidade à escala mundial, a sua utilização temporária e descartável, um tempo fragmentado e de satisfação imediata. Uma sociedade de lixo, visual e sonoro, magnificamente retratada.

Num mundo assim só sobrevive o mais forte, o mais inteligente, o mais engenhoso e o mais sortudo, evidentemente. No caos, o factor sorte tem muita influência.

Bem, vou resistir a contar mais pormenores, pois o filme perdia a piada.

 

Confesso, este War Inc. impressionou-me mesmo. A realização, tecnicamente perfeita. As personagens, complexas e imprevisíveis. Os diálogos, simples e no ritmo certo. A fotografia e a montagem, impecáveis. Os cenários, as fatiotas, tudo bem integrado.

Como observadora dos pormenores e defensora do verosímil, fiquei fascinada pelo filme. Penso até que serve perfeitamente de aviso à navegação. De certo modo, antecipa um futuro que já está aí em certas partes ainda identificáveis. Um mundo caótico, um mundo em que tudo é lixo, a vida, as pessoas, a arte.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:17

Mrs. Muir - Gene Tierney

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.11.09

 

Desafiada por um amável viajante do Rio sem Regresso, dedico esta breve paragem da jangada, a Mrs. Muir.

Digo Mrs. Muir e não The Ghost and Mrs. Muir, porque a personagem que me fascinou quando vi e revi o filme foi sempre Mrs. Muir.

E digo Mrs. Muir-Gene Tierney porque aqui são duas e uma só, só podia ser Gene Tierney esta Mrs. Muir, a jovem viúva, mulher lindíssima, vestida de negro, véu no chapéu e tudo, aparentemente tão frágil, mas surpreendentemente determinada. Uma das personagens mais fascinantes do Cinema. Sem dúvida, uma das personagens femininas mais poéticas e cinematográficas.

 

E depois há o mar... Mrs. Muir terá ficado desde logo presa àquele mar... a brisa, a maresia, o lugar certo para passar o resto dos seus dias, dedicar-se à educação da filha, com a ajuda da governanta fiel, naquela paz...

Se a casa está acessível no mercado por causa de um fantasma de um qualquer Capitão do mar... não importa, a casa é perfeita. Mrs. Muir é uma mulher muito prática, não se detém em pormenores desses.

A família do marido morto ainda tenta demovê-la, uma mulher sozinha, ali num sítio isolado, que loucura!

Mas Mrs. Muir está decidida e nada a poderá demover: aquele é o seu lugar, a casa certa.

O seu rosto é sempre tranquilo, um leve sorriso anima-o sempre... e mesmo na hora do susto, isto é, em que qualquer pessoa medianamente corajosa gritaria de susto ao ver o fantasma... Mrs. Muir responde-lhe à letra, que não se vai deixar intimidar, faça ele o que fizer.

 

Qual é o fantasma, ainda por cima de um Capitão irascível e mal-humorado, que resiste a uma mulher que o enfrenta sem qualquer receio? Um fantasma que se preze, digamos assim, ficaria completamente desarmado em frente de Mrs. Muir.

O Capitão não será excepção. E se é possível imaginar um verdadeiro fantasma apaixonado, este é o filme em que isso acontece. Nunca mais em Cinema se verá assim um fantasma a sério, rendido a uma mulher. Ainda por cima uma mulher tão jovem e de ar tão frágil. E que tinha tido o desplante de lhe invadir a casa e a sua divisão preferida da casa, que também era a dela, a do andar de cima onde se via o mar e onde passariam a conversar tranquilamente como um velho casal.

 

Os dias passam. E nada parece perturbar a paz da casa, de uma vida simples e tranquila. E das suas conversas amenas e acolhedoras.

Até surgir o factor perturbação: um homem real, de carne e osso, e com isso nenhum fantasma pode competir.

Mrs. Muir é jovem, e numa mulher jovem há sempre uma esperança secreta, de voltar a encontrar uma companhia. E este homem soube insinuar-se na sua vida, torna-se mesmo insistente.

 

E aqui estranhamos o paradoxo na personagem: como é que uma mulher tão prática e sensata se deixa seduzir por um homem aparentemente tão banal e desinteressante? É este paradoxo o mais irritante para mim, talvez porque também o vemos na vida real: um homem tão sinuoso e falinhas mansas conseguir iludir uma mulher como Mrs. Muir...

Mas é mesmo isso que acontece. Mrs. Muir, descoberto o terrível (e medíocre) equívoco, fecha-se ainda mais no seu mundo, na casa, na dedicação à filha e desiste da ideia de uma companhia masculina. Vemos, pela primeira vez, o seu rosto fechar-se, quase triste, da desilusão mais profunda, mas a estupidez, insensibilidade e aridez do mundo não a podem atingir ali. Ali estão a salvo.

Talvez parte daquela tristeza se deva à ausência do fantasma, que desaparecera para sempre depois de a ver noutros braços. Nem um fantasma é imune aos ciúmes, e isso é mesmo muito masculino.  (1)

Pode até ser mais romântico ver aquela mulher envelhecer sozinha... bem, não está propriamente sozinha, tem o mar... mas as conversas amenas e tranquilas devem ter-lhe feito imensa falta...

 

Penso que todos os que amam este filme registaram esse final, da descida das escadas, dos dois fantasmas finalmente juntos...  (2)

Também penso que se lembram da música, magnífica, e da presença daquele mar... a envolver tudo...

E que não terão ficado indiferentes ao fascínio daquela personagem feminina, Mrs. Muir.

Toda a narrativa está perfeita. Os cenários. Os diálogos. A montagem. A atmosfera daquela casa.

Este é o Cinema que de certo modo nos transformou, aos que se deixaram fascinar pela sua narrativa própria, os enquadramentos, o encadear das cenas, os sons...

Era impossível não nos ter transformado para sempre...

 

 

 

(1) Mas o impacto no nosso fantasma, da visão de Mrs. Muir com esse homem de carácter duvidoso, será apenas ciúme? Ou um desgosto mais profundo? Desaparecer para não ver a sua amada nos braços daquele homem?

(2) A eterna juventude de um certo romantismo, na idade do fantasma de Mrs. Muir. Ao meu olhar observador, que procura o verosímil mesmo em fantasmas, achei sempre que o fantasma de Mrs. Muir teria de ter a idade em que a mesma morreu. Certamente o fantasma do Capitão correspondia à idade exacta do seu desaparecimento terreno... ou não?

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:17


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D